Life Style
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Âncoras Existenciais

Quando fechei minha empresa, após 15 anos de uma trajetória bem sucedida, passei por uma sabatina. As pessoas à volta buscavam um drama: falência, briga entre sócios, perda irrecuperável de mercado? Como ao senso comum é inaceitável que alguém abandone qualquer construção, tinha que haver algo obscuro por trás dos supostos tapumes.

Passadas as primeiras semanas, a conversa reincidente tornou-se outra. Cada vez que informava a abertura de um novo negócio, a primeira pergunta era: qual é o endereço. Impossível, naquele momento, explicar que havia escolhido içar velas e desfazer amarras. E continuar trabalhando mesmo assim, inclusive melhor e para aquele que me indagava.

Nunca estive tão equipada. Tenho gadgets, redes, sistemas de mensagem instantânea, nuvens. Contudo, enquanto meus arquivos passeiam pelo espaço, insistia em passar 2 horas no carro, 10 horas no escritório e o que restava em casa. E desse resto, a maior parte exausta. Gastava tanto para manter um status quo que por causa dele não sobrava nada, nem tempo, nem vontade.

Home office? Não. Falo de mobilidade, porque já vai longe o tempo em que se calculava felicidade e ascensão profissional de acordo com o número de janelas no escritório. Eu tinha muitas, mas não levantava as persianas. Tinha orgulho de mantê-las impecavelmente novas.

Um dia, revendo o centro de custos, vi que era preciso fazer três pagamentos para manter cada vaga na garagem: aluguel, condomínio e IPTU. Vi também, na lista de suprimentos, um custo fixo para papel toalha superior a algumas Bolsas Família. Difícil dizer em que momento a estrutura se tornou uma entidade à qual passei a servir e o cliente, apenas mais uma de minhas obrigações.

Levantei a âncora. A mesma que antes representava segurança. O que ela me oferecia era a certeza da estagnação. Agora, escolho eleger projetos aos quais tenho a certeza de poder somar e não porque simplesmente somam à minha contabilidade. Escolho estar ao lado do cliente quando ele precisa e pelo tempo necessário. Escolho transitar pelo mundo para que meu trabalho seja impregnado pela vanguarda. Escolho, enfim, trocar a âncora por um tapete voador.

Foto: Carla Furtado 
Crédito: Raquel Pellicano

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