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Roadmap 2015

Finalmente consegui concluir o roteiro do #TFCP para 2015. Ele poderá ser alterado a qualquer instante, ou melhor, a qualquer oportunidade. Mas, já é um começo.

Diante do mapa-múndi, sem qualquer compromisso objetivo, escolher países a serem (re)visitados não é uma tarefa fácil. Que critérios usar? Ao final, o coração é que escolhe. Como bem disse o escritor e sociólogo Walter Benjamin, “Viajo para conhecer a minha geografia”.

Um dos países no itinerário é a Turquia. Para entender a razão divido um texto de julho de 2014, quando pisei pela primeira vez por lá.

O VENTO DOS BÁLCÃS

Termina a reforma do escritório. Enquanto não fechamos a abertura que acomodava o antigo ar condicionado, um vento gelado me incomoda. Vem dos Bálcãs, brinco com minha sócia. “Onde ficam os Bálcãs?” Não faço a menor ideia, respondo.

Estou no deck de um ferryboat. Um rapaz da tripulação baixa a bandeira grega. Isabel me explica: “Acabamos de deixar as águas helênicas e entramos em mar internacional”. Navegamos em uma região mítica, localizada entre a Grécia e o oeste da Turquia. Deixei Mytilene em direção ao arquipélago de Ayvalik. Apesar do verão, não busco balneários.

A Catástrofe da Ásia Menor, como foi batizada, registrou a expulsão de dois milhões de gregos que viviam em solo turco. Cleópatra e Yanni eram meus bisavós. Helene, minha avó – tinha 7 anos quando a família fugiu para Mytilene, em agosto de 1922. Deixaram para trás tudo que possuíam e a convivência pacífica entre turcos e gregos, em uma Ayvalik gloriosa, habitada por uma população culta e próspera.

O ferryboat desliza num mar que mais parece um imenso lago, tamanha a tranquilidade das águas. Mesmo assim, sinto-me mal. Algo visceral me revolve intensamente, como o que senti pouco antes de chegar ao deserto do Golfo Pérsico. Não estou mareada, estou com medo. Faço o movimento inverso ao que fizeram meus bisavós: Atenas-Mytilene- Ayvalik.

Desembarco em Ayvalik no Eid Al-Fitr, feriado que marca o fim do Ramadan, mês do jejum islâmico. Perto do porto, um restaurante recebe dezenas de famílias que celebram o primeiro almoço. Pedimos um Meze – porções de vários pratos típicos. Na bandeja, reconheço preparações tantas vezes feitas por minha mãe, sempre descritas como originalmente gregas. A permanência helênica na Ásia Menor durou 3 mil anos, impossível distinguir a contribuição grega à cultura turca e vice-versa.

Na ilha não falam inglês. Não há turismo estrangeiro. Não há casas de câmbio. As poucas informações que deciframos nos levam a Cunda, ligada a Ayvalik por um estreito. Em um táxi coletivo, um passageiro turco nos sugere duas opções: descer na praia ou na vila localizada no ponto final do trajeto. Escolhemos a segunda e em instantes atingimos o coração do lugar, onde domina a arquitetura grega neoclássica e há a presença de uma igreja ortodoxa convertida em mesquita. Ali viveu Ambrosios Leiathidis, bispo grego executado em 1922, como muitos outros que se recusaram a abandonar suas casas. Ali, possivelmente nasceram e viveram meus bisavós e minha avó, em um tempo no qual cristãos ortodoxos e muçulmanos compartilhavam mais semelhanças que diferenças.

Exploro as estreitas ruas de pedra. Garimpo antiguidades. Bebo chá de gengibre e ervas. Encanto-me com a postura madura dos meninos que começam no negócio da família na função de garçons, atendentes, ajudantes. Sou recebida por uma ilha hospitaleira, acolhedora. Tenho profundo desejo de permanecer, mas meu visto não permite pernoite.

De volta ao porto, da mesquita próxima o almuadem anuncia que é momento da prece. Paro, fecho os olhos, estou emocionada. Quando chegar no Brasil, minhas pesquisas revelarão que sou otomana, como todos os gregos que nasceram e habitaram aquela região. Vivi uma experiência transgeracional, conheci o exílio existencial que acompanhou meus ancestrais e, de certa forma, a mim mesma. Estive em casa, finalmente estive nos Bálcãs.

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